ࡱ> AC@q;bjbjt+t+LAA7] , >>>>>>>>dfff=  $v j >>>>> ,>>>,,,>:>>d>d,8,dd>*  )xd Noite Fria O homem vinha andando pela rua molhada e sombria. A chuva caa preguiosamente na noite fria de inverno. Poucos se aventuravam a sair de casa. O silncio s se rompia quando alguns carros passavam sobre as poas d'gua. Difcil entender o porqu de algum querer sair de casa numa noite dessas. Mas o homem no estava preocupado com isso. Chamava-se Alfredo. Um tipo alto e magro. Tinha 35 anos e morava sozinho h 15 anos e isso para ele soava como um tormento maior que a chuva. Era escritor. Pouco saa de casa. Tanto tempo aprisionado num mundo de palavras amordaadas. Por isso o vento frio que batia no seu rosto era percebido como um carinho suave. Um afago que ele no estava acostumado. Passou em frente a um bar. Parou e entrou. Um bar como outro qualquer, s que estava quase vazio quela hora. Sentou logo na primeira mesa que viu na frente. Deu uma olhada geral e viu uma mulher bem velha atrs do balco. Ela olhava para ele com curiosidade. Suspirou e correu seus olhos pelo resto do recinto. Havia um sujeito tambm velho sozinho numa mesa ao fundo e outro mais jovem numa mesa perto do balco. O bar estava sem luz, por isso funcionava com luz de lampio. Um lugar rstico, que guardava sinais de um passado glorioso nas fotos amareladas na parede. Numa delas podia se ler ainda o ttulo Bar do Beco. O melhor chopp da cidade. Sim, era verdade, pensou Alfredo. Ali se bebia um chopp de primeira. E foi isso que ele pediu para a mulher do balco. - Noite fria, hein?- Disse tentando puxar conversa com a mulher. Esta apenas balanou a cabea afirmativamente enquanto servia o chopp. Alfredo continuou falando: - Coisa pouco comum aqui no Rio, n? Apesar dessa chuvinha fina ser bem comum em agosto...Mas e essa luz que no volta? Estava em casa vendo televiso. De repente a luz apagou. - ...E pelo visto, acho que vai ficar assim a noite toda. - disse a mulher do bar num mal humor trovejante. - Talvez... - Pelo menos minha mulher no vai ver o meu rosto quando chegar em casa... O homem mais velho resolveu entrar na conversa. Sua voz grave e plangente casava bem com aquele tipo de noite. Alfredo olhou para ele e depois para a mulher do balco. - Quem ele? - Eu mesmo digo. Meu nome Frederico Rocha. Sou publicitrio. Mas no momento estou desempregado. - Sinto muito... - Deixa pra l....j estou vacinado contra depresses. E voc? O que faz? Alfredo olhou para ele e para a mulher. - Sou escritor. Mas no momento no estou escrevendo nada. Pra falar a verdade, h tempos no escrevo uma s linha... - Por que, homem? Alfredo encolheu os ombros. - No tenho nada para escrever. No tenho nenhuma estria. Frederico olhou para ele com sua tristeza perene. O outro homem mais jovem que tambm estava no bar aproximou-se com um copo na mo. Devia ter uns 38, no mximo. Corpo esguio, cabelos negros e um olhar distante. Estava com uma barba rala e falha. Usava um casaco preto desbotado, mas de uma grife famosa. - Posso sentar perto de vocs? Eu tambm estou desempregado. S que o meu problema um pouco mais srio: no consigo parar de beber. Perdi 3 empregos por causa da bebida. Ningum demonstrou surpresa com isso. Apenas a mulher do balco enxugava um copo insistentemente e com mais fora. - Qual a sua ocupao, amigo? - perguntou o homem mais velho. - Sou economista. Trabalhava numa grande corretora aqui no Rio. - ....a coisa t complicada.- Disse Frederico Rocha. Alfredo coou a cabea e disse: - Senta a, amigo. - Obrigado. s vezes meio chato beber sozinho. - Tambm acho. Mas j aprendi a hora de parar. Minha mulher fica uma fera quando chego em casa mamado. - Eu no tenho mulher. Moro sozinho h anos. - Voc jovem Alfredo, devia arranjar uma namorada. E voc amigo, como se chama mesmo? O outro jovem olhou para Frederico pensativo e disse: - Meu nome Ricardo Santana. - Voc casado? - Era casado at bem pouco tempo atrs. Mas ela foi embora. Alis, eu a mandei embora. Como uma mulher pode querer um homem desempregado? No incio at que a gente tentou enfrentar. Mas com o tempo o relacionamento foi se desgastando. No h amor que resista falta de dinheiro. Comigo no foi diferente. Ela comeou a ficar fria...a reparar nos meus defeitos...Perdeu a confiana e o respeito. Como ela trabalhava, passou a chegar mais tarde em casa. E quando chegava, eu estava caindo de bbado. Acho que se eu no sasse de casa, ela teria me expulsado. Sa antes. O vexame foi menor... Alfredo nada disse e tomou um grande gole de chopp. Frederico balanou a cabea em sinal de lamento. J tinha visto aquilo vrias vezes. At ali, nada de novo. Com ele tinha acontecido quase a mesma coisa. Mas a Ricardo continuou: - Eu sa de casa. Ainda tinha umas aes na bolsa. Vendi tudo e fiquei perambulando de hotel em hotel. At que aluguei um conjugado ali no Flamengo. Ela ficou com o apartamento da Barra. Procurei voltar para o mercado, mas a minha fama de beberro se espalhou rpido. At amigos antes chegados, inventavam um monte de desculpas para no me empregar. No final, eles j nem atendiam os meus telefonemas. Alfredo bebeu mais um grande gole. - Mas o pior mesmo foi quando fui em casa visitar meus filhos. Como ainda tinha a chave, entrei direto. E l estava ela. Minha ex-mulher na cama com o meu melhor amigo. Alfredo olhou para Frederico que olhava para o seu copo. - Ela estava ali, de quatro. A mulher que mais amei na vida. De quatro e meu amigo... Engasgou e no conseguiu terminar a frase. Frederico, o mais velho destroou o silncio com sua voz poderosa. - Ricardo...J vi isso antes. No se pode confiar em ningum. Nem nas mulheres, nem nos amigos. - Jamais vou esquecer aquela cena. O pior que no fiz nada. Virei as costas e fui embora. Alfredo tomou mais um grande gole mas nada disse. Ricardo olhou para ele e perguntou: - E voc, amigo? Tambm foi trado? Alfredo olhou para ele pensativo. Esfregava o copo nervosamente, como a mulher do balco. Trocou um breve olhar com Frederico antes de responder. - No...h tempos no tenho namorada...pra falar a verdade nada de interessante tem acontecido na minha vida. No tenho nada de interessante pra contar. Desculpem, amigos... - Nada? O que tem feito? Est procurando emprego?- Perguntou Ricardo - Estou tentando escrever um livro de contos, mas ando sem inspirao. Minha vida virou um tdio. No sei mais o que fazer. Frederico levantou-se e foi at o banheiro. Ricardo olhou para Alfredo pensativo. - melhor no ter estria do que ter uma triste como a minha. - Talvez... - Voc nem imagina a dor que encontrar a mulher que voc ama na cama com outro. - Deve ser foda! - Literalmente... Frederico voltou com outro copo cheio. - E voc, Frederico? bem casado? - Tambm estou desempregado. H oito meses ando de porta em porta procurando emprego. Minha mulher est sustentando a casa. Tenho mais de 40 anos. muito difcil darem emprego para algum assim. Como se pra pensar, fosse necessrio um preparo fsico de atleta. - verdade... De repente, um homem entrou no bar. Era um tipo estranho, todo vestido de preto. As roupas estavam rasgadas e desbotadas. Estava plido, tinha um olhar desesperado. Suas roupas estavam muito molhadas. Tinha os olhos muito vermelhos, demonstrando que havia consumido grande quantidade de lcool ou at mesmo drogas. A mulher do balco ficou plida e deixou cair um copo no cho. O som do copo quebrando ecoou como uma marcha fnebre aos ouvidos dos presentes. O tipo estranho aproximou-se do balco. Olhou estranhamente para a mulher e pediu uma bebida. Pegou o copo com mos trmulas. Fez-se um silncio total em volta. Ningum tirava daquela sinistra figura. De repente o homem virou-se e falou com voz nervosa e pastosa: - Isso ...Um assalto...Acho... O silncio agora era senhor absoluto no bar. Os trs homens da mesa se entreolharam surpresos. O homem plido tremia com a arma na mo. - Todo mundo quietinho a e sem tentar nenhuma gracinha!. Tenho 7 filhos que precisam comer. Tentei assaltar a padaria, mas algum chegou antes de mim e levou toda a grana do caixa. Esse bar a minha nica opo. Frederico foi o primeiro a reagir. - Mas amigo... Todos ns estamos desempregados. - Dinheiro pra beber vocs tm, n? Eu nem posso pensar nisso. Vim l da minha terra no Nordeste achando que a vida aqui seria melhor. Mas aqui pior. Ningum ajuda ningum. Por isso eu nem quero saber se vocs tambm esto desempregados. Vo passando a grana e rpido! Falou j quase cando Ricardo tentou: - Mas no temos dinheiro...Na verdade, voc estar assaltando a dona do bar, pois nosso dinheiro mal d pra pagar a conta. O homem olhou para a dona do bar com um estranho olhar. Fitava a mulher com um quase sorriso sarcstico. Essa estava com um olhar indecifrvel, como uma sombra que desliza sinistra num beco escuro de uma noite chuvosa. - Eu nem quero saber se... No conseguiu terminar a frase. Um pesado faco afiado caiu sobre o seu pescoo. O homem soltou um grito abafado e caiu no cho. O sangue saltou em todas as direes como uma mangueira sem controle. A mulher saiu de trs do balco com a gigantesca faca na mo. Os trs homens agora estavam mais plidos que o assaltante. Este ainda olhou com um olhar surpreso e desesperado para a mulher, um olhar que continha toda angstia do mundo. - Meus filhos... - Foram a suas ltimas palavras. O sangue tomava conta agora do cho sujo e frio do bar. - Voc o matou...- Sussurrou Ricardo, o mais plido dos trs, j com medo da sinistra mulher. - Era eu ou ele. - Disse ela friamente, porm com as mos trmulas e os olhos brilhantes. - Mas e precisava? Como voc teve coragem? - Depois de ser assaltada 23 vezes, a gente passa a ficar esperta. Tambm tenho 7 filhos e nem por isso saio por a roubando os outros. Alm do mais, no sou rica. Por que ele no foi roubar os ricos? Frederico levantou-se e se aproximou do morto. - Deus do cu. O homem j foi desta para... E agora? Ningum disse nada. A chuva aumentava do lado de fora. Alfredo olhou para a dona do bar. Era uma mulher de 40 e poucos anos, gorda, cara inchada e feies rudes. - Vamos ter que chamar a polcia... Todos olharam para ele, mas nada foi dito de imediato. A dona do bar se aproximou de Alfredo com um olhar ameaador. - Nada de polcia. Aqui ao lado tem um enorme terreno baldio. Podemos jog-lo l. Se vocs chamarem a polcia eu serei presa. E quem vai dar de comer aos meus 7 filhos? Os homens se entreolharam. Frederico falou: - Mas no podemos jogar o homem no lixo. O coitado merece um enterro digno como todo mundo. - Enterro custa caro. Ricardo levantou da cadeira e foi at a porta do bar. A rua estava deserta. A chuva caa agora com muito mais fora. O vento tambm era forte e o frio intenso. - Mas ser que a polcia no vai descobrir que o corpo veio daqui? A dona do bar sacudiu a cabea. - Esse terreno aqui do lado local de desova. Bandidos vm de vrios pontos da cidade para c. A polcia nunca vai descobrir que foi do bar ao lado que veio o corpo. Alm disso, ningum vai investigar muito uma morte que no sai nos jornais. De um Joo-ningum como esse. Vo recolher o corpo e enterr-lo como indigente. No se preocupem. Ele vai ter um enterro. Os homens ficaram olhando para o corpo pensativos. O barulho da chuva forte batendo no telhado soava como uma cano macabra. A mulher do bar jogou um balde com gua sanitria em cima do sangue e comeou a esfregar com uma velha vassoura. Ningum falava nada. At que Frederico conseguiu dizer: - Vamos levar o corpo embora. Pode chegar mais algum. - Concordo - Murmurou Ricardo - Venham! No podemos perder tempo! - Eu que no vou botar a mo neste corpo.- Disse Alfredo Ricardo olhou para ele contrariado e disse: - Voc prefere o qu? Ser preso quando algum chegar? Vamos logo com isso! Saram do bar com o corpo na mo, envolto no conhecido e macabro plstico preto. Olharam para os lados. No havia ningum na rua. - Me ajuda aqui, Frederico! O cara muito pesado!- Disse Ricardo bufando. Frederico pegou o cadver pelos ps contrariado. Saram do bar. A chuva forte impedia que eles vissem 5 metros a frente. Chegaram perto do muro. - Joguem ali - Disse a dona do bar apontando para uma falha no enorme muro que separava o bar do terreno baldio. Eles suspenderam e jogaram o corpo atrs do muro. Voltaram correndo para o bar. Os troves eram cada vez mais fortes e a tempestade parecia no ter fim. Sentaram na mesma mesa de antes. Olharam para o cho e viram que no havia nem um vestgio sequer de sangue. A dona do bar olhou para eles com uma expresso indefinida. - Agora s esperar amanh que algum vai ver e vai chamar o rabeco. Os trs homens olharam para ela e no disseram nada. - E se as formigas o comerem? - Disse Alfredo - No d tempo delas comerem tudo - falou a dona do bar - Sempre vai sobrar alguma coisa para se enterrar. Frederico respirou fundo, levantou-se da cadeira e disse com voz rouca. - Vou embora. Pelo menos hoje no vou chegar bbado em casa...no quero mais passar por isso. Preciso de um trabalho...adeus... - Espere! - gritou Ricardo - Vou com voc. Preciso respirar...enquanto estou vivo...adeus, pessoal. Os dois saram do bar sob o olhar da sinistra mulher e de Alfredo. Este ficou sentado com uma expresso desanimada. Bebeu de uma s vez a tulipa. Foi ento que viu a mulher ajoelhada no local onde o homem tinha cado morto. Havia colocado uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida no cho e parecia rezar baixinho. Alfredo olhou surpreso para a mulher. Quando ela acabou de rezar e levantou-se, Alfredo no resistiu e perguntou: - Voc normalmente faz isso? Mata os homens e depois reza por eles? Ela olhou pra Alfredo com um olhar indescritvel e disse com uma careta que era uma imitao de um sorriso: - No...S rezei at hoje por esse... - E por qu? - Ele era o pai dos meus 7 filhos... Alfredo no esperou nem mais um segundo. Saiu correndo pela porta do bar e ganhou a rua. A chuva forte rapidamente molhou o seu rosto e encharcou as suas roupas. Mesmo assim ele foi em disparada at a sua casa. A luz havia voltado. Entrou, ligou o seu computador e comeou a escrever. Escrevia e escrevia sem parar. Quando se deu conta, o dia j havia amanhecido. (fim)   ;;;55CJCJ  S o T  X &a@5  S o T  X &a@5k<j(x`R"~8}L 3V]l?"`""##$9%I%%&&n((6)))***++%,,,X-o-.T.t./ 1A1_1c5k<j(x`R"~8}L 3V]l?"`""##$9%I%%&&n((6)))***+++%,,,X-o-.T.t./ 1A1_111152233G5555]66%7769z9_111152233G5555]66%7769z99 ::>:;;;;;z99 ::>:;;;;; / =!"#$% [@@@ Normal5$7$8$9DH$_HmHsHtH6`6Ttulo 1 $$@&6CJ6A@6 Fonte parg. padro7L;5+z9;!"#%_1; $2!8!.7377w~/L 9[mnnqqZ.R " y  @ d f n 8 = 02&vw{{Rk,35HL () 0 #!8!O!O!!-"D##%5%x%% & &&&&&& '''''''(#((())w,,-&-a-- .3...q/r/223!3c3k3y3~3333355263666,7.77 Eduardo Guimares!C:\Meus Documentos\Noite fria.docDungaC:\Livro\Noite fria.doc Guimares(C:\Meus documentos\Contos\Noite fria.doc Guimares?C:\WINDOWS\TEMP\Salvamento de AutoRecuperao de Noite fria.asd Guimares?C:\WINDOWS\TEMP\Salvamento de AutoRecuperao de Noite fria.asd@EPSON Stylus COLOR 777LPT1:EPIJNL40EPSON Stylus COLOR 777EPSON Stylus COLOR 777^ 4hh0DLLName16=EPIGUE5E.dllDLLName32=EPID2E5A.dllEPSON Stylus COLOR 777dhh L hh q*** q***2X4 EPSON Stylus COLOR 777^ 4hh0DLLName16=EPIGUE5E.dllDLLName32=EPID2E5A.dllEPSON Stylus COLOR 777dhh L hh q*** q***2X4  THH 7@@GTimes New Roman5Symbol3& Arial"qh7Fbgal9&-a$xx0f80O homem vinha andando pela rua molhada e sombriaEduardo Guimares Guimares Oh+'0, @L h t  1O homem vinha andando pela rua molhada e sombriaa hoEduardo GuimaresndduaduaNormal  Guimaresim146Microsoft Word 8.0d@~V =@g@ikҾ@zZ)- ՜.+,D՜.+,p, px  Corluzaf81 1O homem vinha andando pela rua molhada e sombria Ttulo 6> _PID_GUIDAN{C11A1420-926D-11D5-92CD-00C0DF440800}  !"#$%&()*+,-./12345679:;<=>?BRoot Entry FF\)D1Table'(WordDocumentLSummaryInformation(0DocumentSummaryInformation88CompObjoObjectPool))  FDocumento do Microsoft Word MSWordDocWord.Document.89q