Com responsabilidade não se pode amar de verdade. Amor responsável é algo muito improvável. E não estou falando de sexo sem camisinha, não é nada disso. Estou falando de amor no sentido pleno da palavra. Ou você ama ou é responsável. As duas coisas ao mesmo tempo é uma impossibilidade. Se você acha que ama com responsabilidade, com certeza deve reavaliar bem seu romance. É muito provável que ele esteja sem sal, sem emoção. O amor precisa que sejamos irresponsáveis como a lua do sol para brilhar. Com "tudo certinho" só se constrói tédio. O tédio é o algoz do tesão. Para combatê-lo, só com muita irresponsabilidade. Se você for do tipo que gosta de tudo nos seus devidos lugares, prepare-se para muito sofrimento. Ou então para viver algo tão emocianante quanto uma partida de bocha. Não tem jeito. Com responsabilidade você pode ser uma ótimo profissional mas nunca um bom amante. O bom amante é naturalmente irresponsável. Seu charme está no inesperado. Ele nunca é previsível. Tem sempre uma carta na manga para surpreender a mulher. Se você acha que estou exagerando, repare naqueles casais amigos que saem com você e não trocam um beijo seguer durante toda a noite. Nem mesmo um carinho, um ligeiro carinho. Não. Estão ali juntos , mas se um estivesse no Rio e o outro em Sidney, daria no mesmo. Não se tocam, não se beijam. Parece que estão apenas "cumprindo tabela". Esse tédio dissimulado ou despercebido tem nome: amor responsável. Ninguém faz nada ou tenta fazer algo de novo. Sei lá¿podiam pegar o carro e passar um final de semana em Penedo, por exemplo. Ou mesmo viajar para Paris. É caro? Claro que é. Mas será que seu amor não merece um pouquinho de ousadia? Vai guardar dinheiro para quê? Para gastar quanto estiver com 90 anos? Não dá. Só sendo irresponsável para construir e manter grandes amores. Ou você nunca reparou que os caras muito certinhos são os mais desinteressantes? São os mais traídos, até. Nenhuma mulher merece viver ao lado de um criatura que apodrece em vida. Repare como os chamados "loucos" são os que vivem mais intensamente e são os mais desejados. Viver ao lado deles é não ter a falsa segurança dos lúcidos. É experimentar sempre e não ter medo de errar e ter que tentar de novo. Com responsabilidade, o amor vai continuar sendo assassinado. Todos os dias, em todos os lugares.
Pálida nitidez do sonho distorcido
Impávida manhã tão indiferente
Cinza insistente roubando o verde entristecido
Nenhuma tristeza é suficiente.
Sabemos de tudo que há de errado
Mantemos amor encarcerado
Vemos o proceder cínico reinar
Mantendo um sorriso torpe no olhar.
Pálida nitidez do silêncio da cor
Brumas teimosas desse último dia
Pelo telefone você não vê a minha dor
Calada, perdida, sem dono e vadia.
O som do desmonte do sonho
As lágrimas derramadas em vão
Soberbos saboreando seus egoísmos
E sonhadores agonizando pelo chão.
(Eduardo Mello Guimarães)
Acho os "making of " dos filmes uma burrice modernosa. E digo mais: são brochantes! Roubam do cinema aquela áurea mágica que tanto nos fascina. Sim, o making off é a morte da ilusão, do sonho romântico que o cinema sempre fomentou. É o assassinato da verdade deliciosamente irreal que vivemos durante mais ou menos duas horas naquela sala escura. Tudo bem que os técnicos no assunto estudem novas tecnologias para nos enganar cada vez melhor. Ótimo! Mas guardem para vocês, ilustres ilusionistas. Queremos que o cinema seja sempre a ilusão mais verdadeira e linda do mundo. O cinema é o óleo que não deixa nossas emoções enferrujarem. Queres saber como estão teus sentimentos? Vá ao cinema assistir a um bom filme. O cinema é um momento único de infinita grandeza. Somos todos felizmente hipnotizados pelos truques e interpretações geniais que saltam da telona e fazem nossos corações baterem forte avisando que estamos vivos. Aí vêm os caras e mostram: "olha, assim que nós fizemos pra te enganar, não somos geniais?". Não queremos saber! Adoramos ser enganados! Precisamos de enganos emocionantes para não apodrecermos em vida. Mas por favor, não nos contem como fizeram para nos ludibriar. O tesão está na mentira maravilhosamente contada. Nada mais doce do que a cantada genialmente inventada. E jamais revelada. Aí vêm os caras e estragam tudo. Vejam o exemplo do já desgastado "TITANIC". Na primeira vez que assisti, saí do cinema com a certeza da possibilidade do amor impossível. Mesmo que este naufrague e afunde ao se chocar com o rochedo do real e desça incólume para o fundo do gélido oceano da realidade. Mesmo assim, saímos do cinema quase que numa euforia de conquista de copa do mundo. Vi em cada rosto a paixão nua que as tristezas dos dias corroem e mascaram. Pois bem. Saímos dali e fomos todos: casais, solitários, amantes...Todos com sonhos em ebulição na alma. Fui para casa com o remorso corroendo o coração por não ter abraçado cada pessoa do cinema no final da sessão. Pois bem. Depois o que se sucede? Ligo a TV num canal a cabo e lá está: "agora você vai assistir ao making off do Titanic." O homem traduzia pateticamente: "Vejam como os bonecos foram jogados na hora que o navio parte ao meio" desliguei a TV na hora. Sabemos que tudo tinha sido um momento da mais doce ilusão. Mas pra quê nos contar a verdade? Por que assassinar a doce ilusão? Não existe arte sem dramaticidade. O público não merece ver o desmoronamento daquele momento de fascinação e delírio. Um bom filme estimula a libido. Nos faz amar melhor. Não resumam então o cinema a um projeto de engenharia de edifício.